quarta-feira, 11 de março de 2009

Cânones

Vamos falar sobre algumas técnicas para compor cânones.




Construção Simples de um Cânone:





A ideia de se fazer um cânone é fazer passo-a-passo, ou seja, i) faz-se uma parte da voz inicial (dux ou proposta); ii) reescreva-a na outra voz (comes ou resposta) modificando o que for proposto pelo compositor: região, intervalos, inversão, retrógrado, etc...; e então completa-se a continuação da voz inicial. Esse processo se repete até o final da composição. Podendo-se acrescentar uma coda final. Abaixo um exemplo de construção de um cânone a 2 uníssono com um tema muito simples (clique nas imagens para ampliar):



De acordo com as indicações dos passos, temos:

  1. aqui é o início do tema sendo cantado em uma das vozes (a voz inicial:dux) e que será repetido em outra voz (comes). A quantidade de compassos para a entrada das vozes pode ser variado pelo compositor. Neste exemplo temos o caso mais simples, apenas 1 compasso;
  2. o segundo passo é copiar o que foi escrito no compasso inicial do dux na outra voz (a voz que vai acompanhá-lo: comes). Neste passo, o compositor pode aplicar transformações: inversão, aumentação, diminuição, etc. . No nosso exemplo, a repetição é literal e em uníssono;
  3. completamos a voz inicial encaixado-a com a segunda voz (que é o próprio tema). Aplicando regras de contraponto;
  4. o compasso do passo 3 é copiado na segunda voz;
  5. completa-se a primeira voz encaixando com a segunda voz, da mesma maneira que foi feita no passo 3;
  6. repete-se os dois últimos passos até o final da peça.



É matemática pura.




Mas para que o cânone seja interessante dependerá da imaginação do compositor. Aqui vão algumas dicas: variação motívica e rítmica da melodia, mudança de região (desde que o instrumento permita), contraste, e, principalmente, modulação.





Neste exemplo, e na maioria dos que seguem, a voz comes está na mesma altura da proposta, não houve variação intervalar. Isto é só para facilitar o aprendizado.





Cânone Invertido





A ideia é a mesma que a anterior, só que nos passos 2, 4, 6, ..., invertemos (literalmente ou não) os intervalos das notas da primeira voz. Algumas escalas permitem a inversão direta, não sendo necessária mudanças cromáticas nas notas do comes (nos casos em que a inversão adotada seja literal). Veja o exemplo anterior transformado em uma inversão literal:




Reparem que no exemplo acima foram mantidas os intervalos entre as notas: quarta justa, quinta justa, segunda maior, etc....





Dependendo do estilo da composição, muitas vezes se quer evitar dissonâncias fortes ou não preparadas. No exemplo temos no * uma 2a. maior (lá-si) soando ligeiramente "seco" (devido ao salto da voz 2), apesar da nota superior descender em grau conjunto. Para isso ser evitado, o compositor tem que saber que as notas serão invertidas, e ao construir o compasso 2 do dux pode assim evitá-las. Como já foi dito antes, depende do estilo de composição, da intenção do compositor, e isso, obviamente, varia de ouvinte para ouvinte, de compositor para compositor.





Abaixo temos um trecho de uma peça para piano que contém um cânone invertido, usando a escala Octatônica, do compositor Carlos Almada (compositor Brasileiro).




O dux está na escala octatônica - modelo b - Coleção I, e o comes na escala octatônica - modelo a - Coleção I. Ambos os modelos (a e b) são inversionalmente simétricos entre si, o que faz dessa peça uma interessante combinação de técnicas. O cânone termina a partir do compasso 8.






Cânone Retrógrado

O compositor tem que pensar ao mesmo tempo nas 2 pontas da música: no início e no fim.

Ao escrever o primeiro compasso, já devemos imaginar como será a cadência final da música, i.e., saber, obrigatoriamente, as notas da outra voz para fazer a cadência desejada (a menos que não seja essa a intenção do compositor).




Aproveitei o mesmo motivo anterior para escrever o retrógrado. Aqui utilizei o início do cânone como cadência final (cadência perfeita: V-I).

Os passos aqui, inclusive para fazer a cadência desejada, são:

  1. desenhei os primeiros compassos (pegos dos exemplos anteriores) e coloquei-os retrogradamente nos compassos finais;
  2. desenhei a melodia da voz 1 no último compasso de modo que fizesse a cadência desejada e ao mesmo tempo fizesse contraponto no primeiro compasso na voz 2;
  3. repete-se o passo 2 acima nas direções opostas até completar todos os compassos desejados.



Interessante fica quando combinamos os cânonoes invertido e retrógrado. O chamamos de cânone de mesa. Vale a pena fazer pelo menos um.





Cânone Perpétuo

Humm... meu cânone preferido.

1a. Técnica:

Procede-se da mesma maneira como no simples, passo-a-passo. A diferença é que o compositor decide o momento que o cânone vai repetir. Veja o exemplo abaixo:




No exemplo acima, o compositor decidiu voltar ao início da frase no compasso 7. Além disso, temos um intervalo exato de 2 compassos que a voz 2 (comes) entra após a voz 1 (dux). O que faz com que estes 2 compassos (compassos 5 e 6) da voz 1 seja invertível com relação aos 2 primeiros compassos do dux, ou seja, ao construir estes 2 compassos devemos fazer contraponto com a voz 2 (comes) e com os compassos 1 e 2, veja a seguir:


Depois é colocar os ritornellos nas posições corretas. Eis a versão final:




Poderia colocar uma cadência final após o último ritornello.


2a. Técnica:

Essa técnica eu não achei em livros, é fruto das minhas análises em diversos cânones.

Ao invés de irmos fazendo a linha melódica (conforme demonstrado nos itens anteriores), fazemos inicialmente uma linha harmônica (base harmônica). E depois disso, através da nossa imaginação (ou intuição, como alguns preferem), é que criamos a linha melódica de cada voz. Podemos incluir quantas vozes quisermos para o cânone, bastando respeitar a base harmônica inicialmente definida.

Uma ressalva aqui. Geralmente achamos a harmonia como resultado das linhas melódicas, mas com esse processo invertemos as coisas: achamos as melodias baseado na sequencia harmônica criada. Por isso é bom, mas não obrigatório, que pensemos nas linhas melódicas (ou pelo menos em uma voz) ao construir a linha harmônica.

Vamos construir um exemplo para entendermos melhor.

Veja abaixo uma sequencia harmônica criada por mim:



Do exemplo acima, podemos retirar diversas linhas melódicas e em quantas vozes quisermos. Se dois compositores pegarem o trecho acima, cada um fará 2 cânones diversos.

Vamos fazer em 3 vozes: cânone a 3 perpétuo.

Então eu crio 3 linhas melódicas abaixo da sequencia harmônica. Veja abaixo:



Lembre-se que as melodias das vozes foram criadas por mim respeitando as harmonias previamente dadas. Esse é um exercício também interessante de se fazer.

A ordem da criação das vozes pode ser a mesma ordem da aparição delas ou não. Pode-se eleger a ordem das vozes após a criação das melodias. A única coisa que devemos nos atentar é que haverá uma emenda de uma melodia na outra (final de uma com início da outra), então temos que pensar nisso ao escrever as melodias. Repare que em * as vozes contradizem um pouco a harmonia (si e ré para acorde Dó Maior), preferi manter o desenho motívico em detrimento ao harmônico, questão de gosto pessoal. O compositor tem a liberdade de alterar o que ele quiser a qualquer momento.


Veja como ficam as emendas das vozes:




Agora é só distribuí-las nos tempos corretos de entrada e, como é perpétuo, colocar o ritornello:





No *, compasso 10, novamente fiz uma alteração: no original a voz inicial estava em lá e alterei para dó. A minha intenção é de deixar mais clara a harmonia.


Mas quais seriam as vantagens desta técnica?

Ambas as técnicas tem vantagens e desvantagens uma sobre a outra, mas podemos citar como vantagem principal o controle harmônico do trecho do cânone em questão. Inclusive podemos, neste trecho, incluir outros cânones ou outras vozes de acompanhamento respeitando a mesma harmonia dada. É claro que estamos supondo que o compositor queira uma harmonia inerente em sua composição, caso contrário, não precisaríamos nos atentar para isso.



Colocarei em outra postagem exemplos de cânones perpétuos, de Mozart e Bach, com sua harmonia inerente. Mas antes, vamos a um último exemplo:

Cânone Espiral Modulante

Vou tirar a liberdade e falar sobre um cânone específico meu.

Estava compondo o meu Te Deum ((R) 2007 - ver em minhas composições) e cheguei no momento em que as vozes solos (SATB) iriam entrar para cantar 4 parágrafos do texto. Eu queria fazer um cânone mas ficaria muito longo, perdendo o equilíbrio formal da obra. Então decidi comprimir os parágrafos, fazendo com que cada voz cantasse um parágrafo, entrando em momentos diferentes. Dessa maneira, dava para fazer um cânone e ainda manter o equilíbrio formal. Fiquei pensando em que tipo/estrutura de cânone melhor adaptaria ao texto e ao estilo da música, uma vez que os parágrafos tinham tamanhos diferentes.

Enquanto estava no ônibus, decidi fazer um cânone espiral modulante: "cânone duplo espiral modulante a 4 vozes, uma voz invertida".

Desenhei o cânone de modo que se encaixasse com o texto dos 4 parágrafos. Veja a versão do cânone:



E eis como utilizei-o no Te Deum:


Parte IV - comp. 57 a comp.64




Deixo para vocês analisarem e chegarem a suas conclusões. Não há nenhum mistério, é apenas Matemática Pura!!!

Experimentem fazer tais testes, exercícios, é muito compensador. É gratificante ver algo surgir do "nada", apenas da sua imaginação, principalmente quando seguimos um plano de desenvolvimento.

Se alguém tiver algum outro cânone interessante, e quiser postá-lo aqui, me envie um e-mail, incluindo o autor e dados interessantes que queira mostrar. Talvez não consiga colocar todos.




abraços,

fonte: anotações das aulas que tive com o mestre e prof. Carlos Almada.

4 comentários:

Anônimo disse...

Boa explicação amigo, valeu pelo empenho em dividir o conhecimento com o proximo.
Grato
Francismar Reis

Carlos A Correia disse...

OK. Obrigado. E se tiver alguma sugestão, por favor, me avise.

abraços,

William Goulart Castro disse...

Muito boa, a sua iniciativa de partilhar conhecimento com este blog, Carlos. Cheguei aqui através do seu comentário lá no blog Euterpe sobre forma vs. conteúdo e tal... Lembra? Eu estou ainda nos meus primeiros anos de estudo; por isso, encontrar sites como este seu é uma dádiva!... Não tenho palavras pra expressar quão significante esta sua iniciativa é para todos os que estão em busca de conhecimento. Faço questão de demonstrar o meu agradecimento, amigo! Quem sabe, futuramente eu possa colaborar neste belo projeto... Mas por enquanto é só. -Até breve!

Carlos A Correia disse...

Oi William,

Obrigado pelo elogio.

Com certeza chegará o dia em que poderás contribuir aqui!

Pode espalhar o meu blog para as pessoas que estudam contigo ou que tem interesse nessa matéria.

A ideia do blog é passar um pouco do que conheço, ajudar as pessoas a entenderem realmente as técnicas de composição, e, principalmente, trocar ideias com outros leitores e quem sabe fazer daqui um encontro de pessoas em prol da música! Quem sabe?

Depende de nós.

abraços,